Segunda-feira, 5 de Abril de 2010

É bom que todos conheçam melhor o que se está a passar

Sacerdotes pedófilos: um pânico moral

Por Massimo Introvigne

(tradução e recebido de

É o Carteiro)

Por que motivo se volta a falar de sacerdotes pedófilos, com acusações que remontam à

Alemanha, a pessoas próximas do Papa, e talvez mesmo ao próprio Papa? A sociologia

tem alguma coisa a dizer sobre isto, ou deve deixar o assunto exclusivamente ao

cuidado dos jornalistas? Parece-me que a sociologia tem muito a dizer, e que não deve

calar-se por receio de desagradar a algumas pessoas. Do ponto de vista do sociólogo, a

actual discussão sobre os sacerdotes pedófilos constitui um exemplo típico de «pânico

moral». O conceito surgiu nos anos 70 do século XX, para explicar a «hiperconstrução

social» de que alguns problemas são objecto; mais precisamente, os pânicos morais

foram definidos como problemas socialmente construídos, caracterizados por uma

sistemática amplificação dos dados reais, quer a nível mediático, quer nas discussões

políticas. Os pânicos morais têm ainda duas outras características: em primeiro lugar,

problemas sociais que existem desde há várias décadas são reconstruídos, nas narrativas

mediáticas e políticas, como problemas «novos», ou como problemas que foram objecto

de um alegado crescimento, dramático e recente; em segundo lugar, a sua incidência é

exagerada por estatísticas folclóricas que, embora não confirmadas por estudos

académicos, são repetidas pelos meios de comunicação, podendo inspirar persistentes

campanhas mediáticas. Por seu turno, Philip Jenkins sublinhou o papel dos

«empresários morais», pessoas cujos interesses nem sempre são óbvios, na criação e na

gestão destes pânicos. Os pânicos morais não fazem bem a ninguém; distorcem a

percepção dos problemas, comprometendo a eficácia das medidas destinadas a resolvêlos.

A uma análise mal feita não pode nunca deixar de se seguir uma intervenção mal

feita.

Sejamos claros: na origem dos pânicos morais estão condições objectivas e perigos

reais; os problemas não são inventados, as suas dimensões estatísticas é que são

exageradas. Numa série de interessantes estudos, Philip Jenkins mostrou que a questão

dos sacerdotes pedófilos é talvez o exemplo mais típico de pânico moral; com efeito,

estão aqui presentes os dois elementos característicos desta situação: um dado real de

partida, e um exagero deste dado por obra de ambíguos «empresários morais».

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Comecemos pelo dado real de partida. Há sacerdotes pedófilos. Alguns casos,

repugnantes e perturbadores, foram alvo de condenações peremptórias, e os próprios

acusados nunca se declararam inocentes. Estes casos – passados nos Estados Unidos, na

Irlanda, na Austrália – explicam as severas palavras proferidas pelo Papa, bem como o

pedido de perdão que dirigiu às vítimas. Mesmo que se tratasse apenas de dois casos – ou

de um só –, seriam sempre demais; contudo, a partir do momento em que não basta pedir

perdão – por muito nobre e oportuna que tal atitude seja –, sendo preciso evitar que os

casos se repitam, não é indiferente saber se foram dois, ou duzentos, ou vinte mil. Como

também não é irrelevante saber se os casos são mais ou menos numerosos entre os

sacerdotes e os religiosos católicos do que entre outras categorias de pessoas. Os

sociólogos são muitas vezes acusados de trabalhar com a frieza dos números, esquecendo

que, por detrás dos números, se encontram pessoas; acontece porém que, embora

insuficientes, os números são necessários, porque são o fundamento de uma análise

adequada.

Para se compreender como é que, a partir de um dado tragicamente real, se passou a

um estado de pânico moral, é pois necessário perguntar quantos são os sacerdotes

pedófilos. Os dados mais amplos sobre esta matéria foram recolhidos nos Estados Unidos

onde, em 2004, a Conferência Episcopal encomendou um estudo independente ao John

Jay College de Justiça Criminal da Universidade de Nova Iorque, que não é uma

universidade católica e que é unanimemente reconhecida como a mais autorizada

instituição académica americana em criminologia. De acordo com este estudo, entre 1950

e 2002, 4392 sacerdotes americanos (num total de 109.000) foram

acusados de manter

relações sexuais com

menores; destes, pouco mais de uma centena foram condenados

pelos tribunais civis. O reduzido número de condenações por parte do Estado deriva de

vários factores. Em alguns casos, as vítimas – efectivas ou presumidas – acusaram

sacerdotes que já tinham morrido, ou cujos alegados crimes já tinham prescrito; noutros

casos, a acusação e a condenação canónica não corresponde à violação de nenhuma lei

civil, como acontece, por exemplo, em diversos estados americanos em que o sacerdote

tenha tido relações com uma – ou mesmo com um – menor com mais de dezasseis anos

que tenha consentido no acto. Mas também houve muitos casos clamorosos de sacerdotes

inocentes que foram acusados, casos que se multiplicaram na década de 1990, quando

alguns escritórios de advogados perceberam que podiam arrancar indemnizações

milionárias na base de simples suspeitas. Os apelos à «tolerância zero» justificam-se, mas

também não deve haver tolerância relativamente à calúnia de sacerdotes inocentes.

Acrescento que, relativamente aos Estados Unidos, os números não mudariam de forma

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significativa se lhes juntássemos o período de 2002 a 2010, porque o estudo do John Jay

College já fazia notar o «notável declínio» do número de casos observado no ano 2000.

As novas investigações foram muito poucas, e as condenações pouquíssimas, devido às

rigorosas medidas introduzidas, quer pelos bispos americanos, quer pela Santa Sé.

O estudo do John Jay College afirma, como muitas vezes se lê, que 4% dos

sacerdotes americanos são «pedófilos»? Nem pensar. De acordo com o referido estudo,

78,2% das

acusações que já ultrapassaram a puberdade. Ter relações sexuais com uma

rapariga de dezassete anos não é certamente um acto de virtude, muito menos para um

sacerdote; mas também não é um acto de pedofilia. Assim, os sacerdotes acusados de

pedofilia efectiva

nos Estados Unidos foram 958 em cinquenta e dois anos, ou seja,

dezoito por ano; as condenações foram 54, ou seja,

pouco mais de uma por ano. referemse

a menores

O número de condenações penais de sacerdotes e religiosos noutros países é

semelhante ao dos Estados Unidos, ainda que não exista, relativamente a nenhum país,

um estudo completo como o do John Jay College. Na Irlanda, são frequentemente citados

relatórios governamentais, que definem como «endémica» a presença de abusos nos

colégios e orfanatos (masculinos) geridos por algumas dioceses e ordens religiosas, e não

há dúvida de que houve casos de gravíssimos abusos sexuais de menores neste país. Uma

análise sistemática destes relatórios permite contudo perceber que muitas das acusações

dizem respeito à utilização de meios correctivos excessivos ou violentos. O chamado

Relatório Ryan, de 2009, que recorre a uma linguagem muito dura no que diz respeito à

Igreja Católica, assinala, em 25.000 alunos de colégios, reformatórios e orfanatos, no

período analisado, 253

acusações de abusos sexuais por parte de rapazes e 128 por parte

de raparigas (e nem todas são atribuídas a sacerdotes, religiosos ou religiosas), de

natureza e gravidade diversas, raramente referidas a crianças pré-púberes e que ainda mais

raramente conduziram a condenações.

As polémicas das últimas semanas, relativas à Alemanha e à Áustria, expõem uma

característica típica dos pânicos morais: apresentar como «novos» factos ocorridos há

muitos anos ou, como em alguns casos, conhecidos parcialmente há mais de trinta anos. O

facto de eventos ocorridos em 1980 terem chegado à primeira página dos jornais

apresentados como se tivessem acontecido ontem – e com particular insistência no que

diz respeito à Baviera, a área geográfica de onde o Papa é originário –, e de deles

resultarem violentas polémicas, com ataques concentrados, que todos os dias anunciam,

em estilo gritante, novas «descobertas», mostra claramente que o pânico moral é

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promovido por «empresários morais» de forma organizada e sistemática. O caso que – de

acordo com os títulos de alguns jornais – «envolve o Papa» é um caso de manual; referese

a um episódio de abusos que teve lugar na Arquidiocese de Munique da Baviera e

Freising, da qual era Arcebispo o actual Pontífice, e que remonta a 1980. O caso veio à

luz em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 1986, estabelecendo, entre outras

coisas, que a decisão de instalar o sacerdote em questão na diocese não tinha sido tomada

pelo Cardeal Ratzinger, nem era sequer do seu conhecimento, circunstância que não é

propriamente de estranhar numa diocese grande, com uma burocracia complexa. A

verdadeira questão deve ser, pois: o que leva um jornal alemão a decidir recuperar o caso,

e trazê-lo à primeira página vinte e quatro anos depois?

Uma pergunta desagradável – porque o simples facto de a colocar parece uma

atitude defensiva, e também não consola as vítimas –, mas importante, é a de saber se um

sacerdote católico corre, pelo facto de o ser, mais riscos de vir a ser pedófilo ou de abusar

sexualmente de menores do que a maioria da população, duas situações que, como se viu,

não são idênticas, porque abusar de uma rapariga de dezasseis anos não é ser pedófilo. É

fundamental responder a esta pergunta, para descobrir as causas do fenómeno, e portanto

para poder evitá-lo. De acordo com os estudos de Philip Jenkins, comparando a Igreja

Católica dos Estados Unidos com as principais denominações protestantes, a presença de

pedófilos é, dependendo das denominações,

duas a dez vezes superior entre os pastores

protestantes. A questão é relevante, porque mostra que o problema não é o celibato, dado

que, na sua maioria, os pastores protestantes são casados. No mesmo período em que uma

centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais de menores, o

número de professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas jovens,

também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos tribunais

americanos atingia os

seis mil. Os exemplos podem multiplicar-se, e não só nos Estados

Unidos. E o principal dado a ter em conta, de acordo com os relatórios periódicos do

governo americano, é o de que dois terços dos abusos sexuais a menores não são feitos

por estranhos, ou por educadores – incluindo os sacerdotes católicos e os pastores

protestantes –, mas por membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos

próprios pais. E existem dados semelhantes relativamente a muitos outros países.

E há um dado ainda mais significativo, mesmo que politicamente incorrecto: 80%

dos pedófilos são homossexuais, são homens que abusam de outros homens. E – voltando

a citar Philip Jenkins – 90% dos sacerdotes católicos condenados por abusos sexuais de

menores e pedofilia são homossexuais. Se a Igreja Católica tem efectivamente um

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problema, não é o do celibato, mas o de uma certa tolerância da homossexualidade nos

seminários, que teve particular incidência nos anos 70, a época em que foi ordenada a

grande maioria dos sacerdotes que foram posteriormente condenados por abusos. Um

problema que Bento XVI está a corrigir com todo o vigor. De forma mais geral, o

regresso à moral, à disciplina ascética, à meditação sobre a verdadeira e grandiosa

natureza do sacerdócio, são os melhores antídotos contra a verdadeira tragédia que é a

pedofilia; e o Ano Sacerdotal também deve ter esse objectivo.

Relativamente a 2006 – altura em a BBC emitiu o documentário de Colm

O'Gorman, deputado irlandês e activista homossexual – e a 2007 – altura em que Santoro

apresentou a respectiva versão italiana em

Annozero –, não há, na realidade, grandes

novidades, à excepção de uma crescente severidade e vigilância por parte da Igreja. Os

casos dolorosos dos quais se tem falado nas últimas semanas não são todos inventados,

mas sucederam há vinte ou trinta anos.

Ou talvez haja uma novidade. Como se explica esta recuperação, em 2010, de casos

antigos e muitos deles já conhecidos, ao ritmo de um por dia, atacando de forma sempre

mais directa o Papa, um ataque aliás paradoxal, tendo em consideração a enorme

severidade, primeiro do Cardeal Ratzinger, e depois de Bento XVI, relativamente a este

tema? Os «empresários morais» que organizam o pânico têm objectivos específicos,

objectivos esses que se vão tornando cada vez mais claros, e que não são a protecção das

crianças. A leitura de certos artigos permite compreender que – na véspera de escolhas

políticas, jurídicas e mesmo eleitorais que, um pouco por toda a Europa e pelo mundo,

põem em questão a administração da pílula RU486, a eutanásia, o reconhecimento das

uniões homossexuais, temas em que a voz da Igreja e do Papa é quase a única que se

ergue a defender a vida e a família – poderosos grupos de pressão se esforçam por

desqualificar preventivamente esta voz com a acusação mais infamante, que é também,

hoje em dia, a mais fácil de fazer: a acusação de favorecer ou tolerar a pedofilia. Estes

grupos de pressão mais ou menos maçónicos são uma prova do sinistro poder da

tecnocracia, evocado pelo mesmo Bento XVI na encíclica

Caritas in Veritate e

denunciado por João Paulo II na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1985 (de

08.12.1984), quando se referia aos «desígnios ocultos», a par de outros «abertamente

propagandeados», «com vista a subjugar os povos a regimes em que Deus não conta».

Vivemos realmente numa hora de trevas, que traz à mente a profecia de um grande

pensador católico do século XIX, o piemontês Emiliano Avogadro della Motta (1798-

1865), que afirmava que das ruínas provocadas pelas ideologias laicistas nasceria uma

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verdadeira «demonolatria», que se manifestaria de modo especial no ataque à família e à

verdadeira noção do matrimónio. Restabelecer a verdade sociológica sobre os pânicos

morais relativamente aos sacerdotes e à pedofilia não permitirá travar este grupo de

pressão, mas poderá constituir, pelo menos, uma pequena e devida homenagem à

grandeza de um Pontífice e de uma Igreja feridos e caluniados porque se recusam a calarse

nas matérias que dizem respeito à vida e à família.

Março de 2010



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P.e Martins

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