PESADELOS DE UMA PROFECIA FALHADA
Foi muito curiosa, apesar de esperada, a reacção dos responsáveis do Ministério da Saúde em diversos graus e escalões, perante a primeira contagem dos abortos realizados, com um mês de vigência da lei. Só 300? Como é possível acontecer assim? Estamos perdidos! E multiplicaram-se as explicações para esta desgraça (!), para eles inesperada. Até que, dias depois, as vozes apareceram mais animadas. Já eram 526! Mas lamentava-se, em surdina, que sete ou oito mulheres, (que pobre gente!) depois das explicações regulamentares recebidas, tinham desistido de abortar. E lá se foi dizendo, como que a prevenir para evitar derrotas morais, que se esperavam 1600 abortos por mês... Só com estes se pode dar razão às razões e promessas do referendo... Se não aumentarem os abortos a pedido, dizia-se nas entrelinhas, como se poderá chegar aos 30 mil clandestinos de que tanto se falou na campanha? 0 fantasma, porém, está aí de novo. 0 problema é preocupante, porque os do "não" continuam em campo e não vão desarmar, nem se vão calar... Que pesadelo! Como se não bastassem os números.
[...] A descriminação entre uma parturiente normal, trabalhadora, e uma grávida que quer abortar é simplesmente inadmissível. Os muitos direitos desta fazem correr o ministério para que tudo se resolva sem encargos para ela, aqui, ali ou além. E no resto da saúde? Portas abertas para fazer abortos, portas fechadas para milhares de portugueses que esperam em vão por uma cirurgia urgente, que se resolve a conta gotas, pondo o Ministro a ser ridículo pelas explicações que dá ao pais.
Sobra cada vez mais pano para fazer mangas. É preciso continuar. Que a gente que pensa, acorde e perceba, perante o que se vê, se vive e se legisla, que as soluções legais, nem sempre são justas, morais e éticas. E que as políticas, muitas vezes são um logro.
(D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, in Correio do Vouga, 29-08-07)